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Recontando a história do Moinho São Jorge

Reportagem multimídia produzida por Deisy Costa e Viviane Bucci 

“A cultura histórica tem o objetivo de manter viva a consciência que a sociedade humana tem do próprio passado, ou melhor,

do seu presente, ou melhor, de si mesma.”  

Benedetto Croce

Esse site conta, por meio de textos, imagens, infográficos e áudios, o desenvolvimento da história do moinho São Jorge.

Conheça o Moinho São Jorge
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O Moinho São Jorge foi um marco na economia e industrialização do país nos anos 1950. Atualmente, quem passa pela avenida dos Estados e vê aquela grande muralha de pedra parcialmente abandonada, não imagina qual a sua origem. 
Na região de Itapuí, interior de São Paulo, no início dos anos de 1900, havia uma família bastante influente no comércio local, os Chammas, mais precisamente Jorge Chammas e sua esposa, Felícia Marun, donos do comércio "Casa Chammas". No ano de 1908, em primeiro de janeiro, nasceu Antônio Adib Chammas, um dos fundadores mais influentes do Moinho São Jorge. Com 8 anos, ele já impulsionava os negócios do pai e, com aproximadamente 32 anos, começou a dirigir uma grande firma de importação na cidade de Jaú.

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Moinho São Jorge

Segundo o livro "Antônio Adib Chammas - O bandeirante do progresso de São Paulo", na década de 1940, ele revolucionou o mercado de café e algodão nas transações internas e nas exportações. Adib tinha o sonho de ser uma pessoa abrangente e construir um grande complexo industrial no setor alimentício.
Contribuiu de forma eficiente para suprir o mercado interno, durante o período da 2ª Grande Guerra (1939-1945), com a situação precária na importação de gêneros de primeira necessidade, como a farinha de trigo, acontecimento que determinou os rumos futuros de vida. 

 A necessidade de ter um moinho de trigo no Brasil se deu em decorrência da guerra, já que o trigo importado estava com um preço bem acima do mercado da época. A matéria "O pão que o diabo amassa", publicada no jornal Correio do Amanhã no dia 5 de junho de 1960, abordava a cultura do trigo no país e apontava que havia uma grande concentração de plantação de trigo no Rio Grande do Sul pelas condições climáticas e pelo solo apropriado. Um decreto obrigou todos os moinhos instalados no país a adquirirem cotas da produção nacional, de acordo com a capacidade de moagem e armazenamento, pois, em 1952, o Banco do Brasil S.A. foi o único comprador do trigo importado e também exclusivo fornecedor da matéria aos moinhos do país.
     

Os irmãos Chammas já tinham negócios de gênero alimentício na cidade de Jaú, antes mesmo de darem início à construção do moinho São Jorge e eram bastante influentes na região. O jornal "Correio do Amanhã" presenciou o início da construção do moinho São Jorge no dia 18 de outubro de 1952, um dos presentes relataram que: "o país representa um potencial altamente valioso para indústrias deste gênero, não só pela procura cada vez mais crescente desse alimento básico, como também pelas possibilidades de se tornarem um dos maiores produtores de trigo em grão do mundo".
   

O desenvolvimento da triticultura (técnica de produzir o trigo) no Brasil, na época, era um empreendimento notável, tendo em vista que o governo Vargas estava favorável ao desenvolvimento nacional, dando mais atenção ao mercado interno e possibilitando o crescimento dos comércios brasileiros.


 

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O mercado de trigo no Brasil ainda estava sob o domínio de empresas internacionais, pois dependia da importação do trigo e para promover a produção nacional. Antônio Adib Chammas aproveitou o momento favorável para o comércio no brasil e investiu na construção do imponente moinho São Jorge, que já foi considerado um dos maiores da América Latina. Ele tinha vários acionistas dispostos a impulsionar a produção de trigo no território brasileiro. À frente da construção do moinho São Jorge estava o cunhado de Adib e João Chammas, José Marun Atalla, renomado engenheiro da época, casado com Julieta Chammas, irmã mais nova de Adib, sócio do Instituto de Engenharia de São Paulo e prestador de serviços ao desenvolvimento de São Paulo.

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Luiz Guilherme Atalla Camasmie é neto do engenheiro responsável pela obra do moinho São Jorge, José Marum Atalla, conta que havia uma grande influência política e muito interesse de terceiros no moinho. É um monumento que conta com muitas repartições, maquinário importado e, por trás de tudo, era um grande promotor das políticas de São Paulo. Em 1953, o moinho São Jorge foi inaugurado e aprimorado com o passar dos anos, contando com várias alas dentro do seu complexo, como tecelagens, produção agrícola, automobilísticas e atividades bancárias.

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Inaugurada no dia 18 de setembro de 1977, em Santo André, a praça José Marun Atalla, na frente do moinho São Jorge, presta uma homenagem ao engenheiro. A homenagem contava com um busto que foi inaugurado pelo sócio do moinho São Jorge, João Chammas. Ele foi retirado em 2021 pela própria prefeitura para não ser danificado em decorrência das obras no viaduto Castelo Branco, localizado perto da região. 

Enio Moro Junior, gestor do curso de Arquitetura e Urbanismo, relata que a construção do moinho seguia grandes tendências dos prédios da época, inspirado em moinhos de outros países. Enio conta também que o moinho São Jorge já foi considerado um dos maiores da América Latina com máquinas que eram altamente tecnológicas para a época de sua fundação. 
 

Salão de mil e uma noites ou Palácio de Mármore?

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O salão de festas foi inaugurado em janeiro de 1959. Originalmente era chamado de “salão de mil e uma noites", porém se popularizou como ‘Palácio de Mármore’. 

Como é o Palácio de Mármore?

Com um imponente hall totalmente revestido em mármore carrara italiano rosa e arandelas de luz indireta. O salão possui 5 mil m² com capacidade para 1.200 pessoas. Internamente possui revestimento nas paredes, parte em mármore carrara italiano rosa e parte em lambris de madeira nobre. Há também colunas revestidas em mármore roxo. O revestimento de piso é parte em tacos, com paginação tipo dama, e parte em granito. A área de estar possui um afresco, de autoria do artista Giulio Rosso, com a representação da evolução do trigo desde seu cultivo por fenícios, egípcios, chineses, africanos e brasileiros até chegar à industrialização do trigo.

Curiosidade

Maria Amélia retrata que ia em muitos bailes no salão de festa do moinho São Jorge nos anos 60. Ela conta sobre as festas mais comuns que frequentava e aponta um fato curioso que para subir para o palácio, eles colocavam uma espécie de meia nos sapatos para não levar farinha pro salão. As tendências de moda também eram exibidas nas festas: aproveitavam a ocasião para inaugurar as roupas. 

As festas começavam comumente às 22h e iam até as 4h da madrugada. O moinho contava com um bar, onde os homens ficavam. Ela também disse que os sapatos eram muito importantes, pois deveriam ser confortáveis e bons para dançar, pois a dança era como se fosse o flerte da época.

Dona Cecília Possato era gerente do Banco do Brasil nos anos 1960 e fazia parte da comissão organizadora de alguns bailes que aconteciam no moinho São Jorge. Ela disse que a reserva era feita diretamente com o dono do moinho, Adib Chammas. Sua função nesses eventos era orientar os garçons e passar nas mesas perguntando se estavam precisando de algo. 

Antônio Parejo também frequentou muitos bailes no moinho e contou como a beleza do Palácio de Mármore era “de tirar o fôlego”. Ele retrata que o moinho era um ponto de encontro dos jovens da época. Como eram poucas as linhas de ônibus na cidade e como os bailes aconteciam de madrugada, eles ficavam até o último minuto para poder ir embora. Muitas das vezes ele pegava carona com uns amigos que moravam no mesmo bairro que ele. Ele retrata também que, às vezes, acabava saindo do baile do moinho e ia terminar de curtir a noite no clube Clube Atlético Aramaçan. 

Qual a importância do moinho São Jorge para a cidade de Santo André?

Por ser um dos monumentos mais antigos da cidade, o moinho São Jorge movimentou não apenas a economia de Santo André, mas também a economia do Brasil nos anos 1960. Sílvia Passareli é historiadora e fez parte da comissão de conselheiros do Comdephaapasa (Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico-Urbanistico e Paisagístico de Santo André). Ela defende que os artigos que compunham o moinho e a construção em si são de extrema importância para os moradores da região. A composição histórica do moinho faz parte da história do desenvolvimento do país, e muitas pessoas que moram em Santo André não fazem ideia do que se trata o prédio. 

Últimos acontecimentos no Palácio de Mármore. 

Em 2002, o Palácio de Mármore foi cedido ao comitê do PT (Partido dos Trabalhadores) para eventos internos. 
Foi usado pela última vez em 2015 para a comemoração dos 462 anos da cidade de Santo André promovido pela ACISA (Associação Comercial e Industrial de Santo André). Foi o último relato de atividades no salão de festa do moinho.
Oswana Fameli, era vice-prefeita da cidade de Santo André e retrata que falou pessoalmente com o atual proprietário do moinho, Jorge Chammas Neto, para ceder o espaço para a comemoração do aniversário da cidade. Ela, assim como muitos entrevistados, ressalta a beleza do moinho. 

 

O que tem dentro do moinho São Jorge?

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O moinho conta com oito andares e tem 40 metros de altura com várias alas dentro do seu interior. Originalmente, a fachada do edifício media 320 metros de comprimento e o prédio era composto por três estruturas visivelmente distintas: um retângulo com aproximadamente 40 metros de altura; um intermediário mais alto onde se localiza a capela em devoção a São Jorge e apartamentos para hóspedes; a outra instalação possui os oito conjuntos de silos com 40 tubos executados em concreto armado e capacidade para 60 mil toneladas de trigo. Posteriormente, foi construído uma quarta parte com altura de cerca de 40 metros e heliponto em sua laje de cobertura

Curiosidade sobre o Jardim de Inverno

Este salão é anexo a um jardim externo com 2 mil m². Toda a área de canteiros e as laterais do salão possuem uma cobertura e pergolado em concreto, que se apoiam em pilares circulares, na borda interna da cobertura, e retangulares na borda externa do pergolado, revestidos de pastilhas em vidro verde. A conexão do salão com o jardim é feita por esquadrias em ferro e vidros transparentes que garantem uma vista direta e integração com a área externa, jardim e varandas laterais.

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