
Mais empresas abandonadas no ABC Paulista
Entenda um pouco mais sobre a história de cada lugar
Indústrias Reunidas Matarazzo
Linha do tempo

Esse menino vai naufragar na costa do Brasil, vai perder uma partida de queijos e vinhos, vai iniciar a revolução brasileira e vai virar conde.
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Para contextualizar a vinda do Conde Francesco Matarazzo para as terras Brasileiras é necessário contar a sua história. Em 1881, um conterrâneo e velho amigo da família foi a Castellabate, uma comuna italiana, Fernando Grandino era negociante de calçados no município de Sorocaba no interior de São Paulo, ele retratou como a cidade era boa para os negócios e até a chamou de "terra do futuro", propôs a vinda de Francesco para as terras Brasileiras.
Quando completou 27 anos de idade, embarcou trazendo consigo uma carga de toucinho e um lote de mercadorias, pois ele pretendia iniciar suas atividades comerciais no Brasil. Quando Francesco desembarcou no Rio de Janeiro soube que a embarcação que trazia seus insumos havia naufragado. No ano de 1882, Francesco abriu seu primeiro negócio no Brasil, que era uma venda em Sorocaba. Daí se iniciou os negócios Matarazzo. Francesco era muito empenho como comerciante e sempre viajava procurando por inovação e novos insumos. Em 1890, três irmãos de Francesco já estavam no Brasil e a partir dessa união surgiram mais empresas que levavam o nome de Matarazzo & Irmãos.
Francesco Matarazzo deu um pontapé inicial na economia paulista e em 1890 passa a operar um armazém na rua 25 de março com a finalidade de distribuir a banha que era produzida nas fábricas. No mesmo ano, Francesco e seu irmão Andrea alteraram o nome de sua produção para F. Matarazzo e Cia. Ltda., e também construíram suas casas na avenida Paulista.
O primeiro moinho foi aberto em 1900 no bairro do Pari, em São Paulo, com maquinário vindo direto de Manchester, o moinho possuía uma oficina de consertos, um almoxarifado e uma oficina para a confecção de embalagens em sacos. Quatro anos depois essas instalações foram adaptadas e se tornou uma metalúrgica e uma fiação e tecelagem chamada de Mariangela, na mesma rua.
Os negócios da empresa Matarazzo só aumentavam e a tecelagem tinha aos fundos uma fábrica de óleo de caroço de algodão. Com a ampliação dos negócios, Francesco sentia a necessidade de alcançar uma maior agilidade na movimentação do capital, e em 1900 ele se uniu a um grupo de capitalistas italianos e em 18 de maio surgiu a Banca Commerciale Italiana di São Paulo. Francesco era muito requisitado no ramo do comércio e em 1911 já possuía fiação e tecelagem, moinho, engenho de beneficiamento de arroz, fábrica de banha, depósitos, armazéns, e até mesmo um escritório próprio.



Moinho Fratelli Maciotta
Linha do tempo

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O moinho Fratelli Maciotta é um importante testemunho edificado da primeira industrialização de São Paulo e do processo de urbanização do Grande ABC Paulista.
Marcílio Duarte

Créditos: Viviane Bucci
As indústrias situadas no grande ABC tiveram uma grande contribuição para o desenvolvimento econômico e social da região. As três indústrias em foco são prova de como os polos industriais foram de extrema importância para o impulsionamento industrial do Brasil. O polo mais antigo da pesquisa realizada é o Moinho Fratelli Maciotta (Fábrica de sal), localizado na cidade de Ribeirão Pires. Foi fundado em 1895 no final do século XIX, com o fim da escravidão e com o início da industrialização no país, surgia o capitalismo industrial brasileiro.
Projetado pelo italiano Frederico Maciotta, visto a necessidade da produção de pão no país, pois aqui no Brasil não se plantava o trigo e a farinha que vinha era importada da Argentina com uma qualidade inferior e até mesmo imprópria para consumo, pois já estava passada. Frederico era agrimensor, profissional responsável por desenvolver plantas de obras de infraestrutura, obras de saneamento e atuar com o planejamento de estradas e ruas. Ele trabalhava para o Estado, tinha posses e recursos e obteve algumas informações uma delas foi que uma região boa para se investir era essa em Ribeirão Pires, pois ficava próxima ao porto de Santos, próximo a capital e ao lado da via férrea, o que facilitava a chegada dos insumos ao moinho.
Essas contratações próximas a linha do trem eram uma tendência de ocupação urbana, padrão industrial para a época. O moinho foi feito com capital próprio, começando assim a produção de farinha com grano duro, um grão nobre para época, produzindo a farinha Flórida, de alta qualidade, patenteada e comercializada pelo Maciotta. Em 1900, a sua primeira concorrente começa a aparecer, o moinho central das indústrias Matarazzo se revela e aplica um "golpe" nos irmãos Maciotta. Ele é obrigado a baratear o preço do seu produto pois o potencial do moinho Matarazzo era muito maior que o seu, pois o moinho Fratelli Maciotta era de pequeno porte. Ele ainda atuou no mercado durante 14 anos, produzindo alguns derivados como o fubá.

Créditos: Marcílio Duarte
Durante esses anos, Frederico passa por algumas perdas familiares e resolve por fim, vender o seu moinho. José Mortari que também é italiano, vira o mais novo proprietário do moinho, porém sua produção é focada em fubá. De 1914 até a metade do século XX o moinho se torna o moinho Mortari, sempre instável, abrindo de forma irregular. Em 1932, com a revolução constitucionalista, o governador da época, Pedro Manoel de Toledo decreta que todos os galpões que estavam inativos deveriam se tornar depósito de pólvora.
Após esse período, o moinho continua instável, sendo até mesmo produtor do bicho da seda, depois se torna uma fábrica de salitre, adubo e por fim em 1943 se torna a fábrica de sal com o seu atual dono, Carmino Cotellessa. Os blocos de sal vinham do Chile e eram descarregados na área da indústria. O real problema com a contaminação do sal vem do aterro feito na região, onde até então a CETESB, órgão responsável por manter o controle das fontes de poluição ambiental da indústria e ainda não existia para fazer a regulamentação e estudo da área.
Segundo Enio Moro Júnior, arquiteto especializado na questão de urbanização de cidades e na questão patrimonial de edifícios, o sal, até então, não apresenta riscos ao ser humano , porém, no caso da fábrica ele acabou comprometendo a arquitetura do local, corroendo estruturas de ferro e expelindo sal pelos tijolos de alvenaria que faz parte da sua estrutura. O sal era depositado na área dos silos, e é nessa região onde há a maior concentração de sal, impregnado na região e até mesmo no lençol freático.
Em 1996 a fábrica fecha às portas e em 2000 acontece uma desapropriação judicial pela prefeitura de Ribeirão Pires. Em 2001 a prefeita Maria Inês Soares tem posse da chave e começa a reconversão da fábrica para um centro cultural. A refinaria passa por uma série de manutenções e se torna centro cultural, inaugurado em 2004. Porém, só em 2009 que o prédio começa de fato a apresentar sérios problemas causados pelo sal, um deles é a interferência na eletricidade, em seguida na parte hidráulica e a longo prazo esse sal começa a interferir na saúde das pessoas que trabalhavam ali e havia relatos que o local era tão salinizado que as pessoas sentiam o sal na boca e os olhos ardiam por conta do sal.
A partir do laudo do IPT é confirmado que o prédio é insalubre e que não é possível realizar atividades permanentes ali. O prédio ficou abandonado porque a prefeitura não tinha recursos.
Marcílio Duarte, especializado em gestão de Projetos culturais pela ECA/USP e UdG (Universitat de Girona realizou o estudo do tombamento juntamente com o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico) para provar o valor histórico do local. O tombamento foi aprovado e realizado, porém o espaço segue abandonado desde então.


